🧠 Ressecção de Meningeoma do Ângulo Pontocerebelar

🧠 Ressecção de Meningeoma do Ângulo Pontocerebelar

> "Desprendendo uma pérola que cresceu lentamente no berço entre o cerebelo, a ponte e o nervo auditivo, sem romper os fios delicados ao redor."


📋 O que é?

Procedimento para remoção de tumor meningeoma originado das células da aracnoide na região do ângulo pontocerebelar (CP Angle) — espaço triangular entre o cerebelo, a ponte (tronco encefálico) e a orelha interna. Diferente do neurinoma, o meningeoma nasce fora dos nervos, mas comprime-os à medida que cresce.

Estes tumores geralmente são benignos (WHO grau I), circunscritos e de crescimento lento, mas podem atingir tamanhos consideráveis, moldando-se ao redor de vasos e nervos como cera derretida que solidifica, tornando a dissecção um exercício de paciência e precisão microscópica.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Crescimento documentado em imagens seriadas (tamanho aumentando ao longo de meses/anos)

🎗️ Sintomas compressivos: perda auditiva unilateral, tontura persistente, fraqueza facial

🎗️ Compressão do tronco encefálico ou cerebelo com ataxia (desajeitão) ou hidrocefalia

🎗️ Edema cerebral ao redor do tumor (sinal de agressividade biológica)

🎗️ Alterações de personalidade ou cefaleia por hipertensão intracraniana

🎗️ Diâmetro superior a 2-3 cm ou sintomas progressivos


🔧 Abordagens cirúrgicas

🔍 Via Retrossigmóidea Padrão Acesso suboccipital por trás da orelha, rotação suave do cerebelo para expor o tumor. Versátil para a maioria dos tamanhos.

🌊 Via Retrossigmóidea com Preservação do Seio Transverso Abordagem superior do seio, útil para tumores que se estendem acima da inserção do tentório.

🎯 Abordagem Combinada (Presigmóidea) Para tumores gigantes que envolvem o tronco encefálico anteriormente, acesso entre o seio sigmóide e o osso temporal.

🔄 Via Translabyrinthiana (rara para meningiomas) Apenas quando a audição já está perdida e o tumor é predominantemente lateral — oferece visão frontal do nervo facial.


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Posicionamento: Decúbito lateral ou park-bench (semi-lateral), fixação craniana para estabilidade absoluta durante microscopia prolongada.

2️⃣ Acesso: Craniotomia suboccipital de 4-5 cm, exposição do seio transverso e sigmóide (marcadores anatômicos vitais), abertura da dura-máter em curva de C.

3️⃣ Exposição: Liberação de líquor cefalorraquidiano para relaxar o cerebelo, exposição gradual do tumor e identificação do nervo facial e trigêmeo (monitoramento neurofisiológico contínuo).

4️⃣ Ressecção: Coagulação e incisão da base dural (origem do tumor), desencapsulamento cuidadoso dos nervos e vasos (frequentemente a artéria basilar e seus ramos estão aderidos), remoção em peça única se possível, ou fragmentação controlada.

5️⃣ Reconstrução: Fechamento dural impermeável (enxerto se necessário), cranioplastia com substituto ósseo ou placa de titânio, fechamento em camadas.

⏱️ Duração: 5 a 10 horas, dependendo da vascularização e aderências.


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: UTI 48h, enfermaria 5-7 dias (recuperação mais lenta que neurinomas devido à manipulação maior).

🚶 Mobilização: Posição elevada 30° imediatamente, deambulação em 48-72h com auxílio.

📅 Recuperação:

  • Tontura e náuseas: comuns nas primeiras 2-4 semanas
  • Fraqueza facial transitória: 30-40% dos casos (recuperação em meses)
  • Disfagia (dificuldade de engolir) se nervos glossofaríngeo ou vago afetados: temporária
  • Retorno às atividades: 8-12 semanas
  • Fisioterapia vestibular: essencial para reabilitação do equilíbrio

🎯 Diferencial dos meningiomas:

  • Maior chance de preservação auditiva comparado a neurinomas (o tumor não nasce no nervo)
  • Risco de recorrência se ressecção incompleta da base dural (resecção de Simpson grau II ou III)
  • Possível necessidade de radiocirurgia adjuvante para resíduos

🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

A complexidade anatômica desta região exige expertise específica em cirurgia de base de crânio.

Efeitos temporários:

  • Síndrome de descompressão (edema cerebral pós-remoção do tumor)
  • Paralisia facial parcial (parese grau House-Brackmann II-III)
  • Número zero (anestesia corneana) e xerostomia (boca seca) se nervo intermediário afetado
  • Cefaleia pós-craniotomia (tratável)

Nossa equipe está preparada para:

  • Lesão do nervo facial — reparo com enxerto de nervo sural se necessário
  • Fístula liquórica — manejo conservador ou cirúrgico
  • Infarto cerebral (lesão de ramos da basilar) — extremamente raro mas grave
  • Hematoma epidural ou subdural — drenagem emergencial
  • Recorrência tumoral — vigilância radiológica de longo prazo (RM anuais)

Conversamos previamente sobre:

  • Que meningiomas grau I têm cura potencial com ressecção completa, mas aderência a vasos pode impedir remoção total segura
  • Grau de ressecção de Simpson (I a IV) e implicações na taxa de recorrência
  • Opção de radiocirurgia estereotáxica para tumores pequenos ou resíduos
  • Síndrome de Cushing de rebound se uso prolongado de corticoides pós-op

⚖️ Tomada de decisão

🔹 Tumores sintomáticos ou crescendo: cirurgia é tratamento de escolha

🔹 Tumores pequenos (< 2cm) em idosos: vigilância com RM seriada ou radiocirurgia

🔹 Preservação da qualidade de vida versus radicalidade cirúrgica — equilíbio individualizado

🔹 Tumores atípicos ou malignos (raros): cirurgia seguida de radioterapia


🤝 Desprendemos a pérola lentamente, respeitando cada nervo e vaso que se entrelaçou ao redor dela ao longo dos anos. Este conteúdo não substitui a consulta individual onde seu caso específico será discutido em detalhe.