🧩 Lobectomia Frontal

🧩 Lobectomia Frontal

> "Retirando um cômodo específico do palácio da mente, ciente de que movemos móveis de memória e personalidade, mas libertando o resto do cérebro da pressão e das crises."


📋 O que é?

Procedimento de remoção de um lobo cerebral frontal (total ou parcial), seja por tumores infiltrativos (gliomas de alto grau), lesões traumáticas devastadoras, malformações vasculares ou epilepsia refratária focal. O frontal direito (não dominante) ou esquerdo (dominante) são territórios distintos com implicações diferentes.

É como desativar uma asa inteira de uma fábrica mantendo as outras funcionando — removemos o tecido doente que causa crises epilépticas, compressão ou edema, aceitando que funções específicas (controle emocional, planejamento, movimento contralateral) serão modificadas ou redistribuídas.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Gliomas de baixo grau (ou alto grau) localizados predominantemente em um lobo frontal

🎗️ Epilepsia refratária a medicamentos com foco frontal claramente definido (esclerose mesial temporal frontal)

🎗️ Abscessos cerebrais frontais grandes ou multiloculados

🎗️ Traumatismos cranioencefálicos com contusão frontal devastadora e hipertensão intracraniana incontrolável

🎗️ Malformações arteriovenosas (MAVs) frontais de difícil acesso endovascular

🎗️ Metástases únicas frontais sintomáticas ou com edema refratário


🔧 Extensões da ressecção

🔍 Lobectomia Frontal Padrão Remoção do lobo frontal completo, desde o pólo anterior até o sulco pré-central (limite motor), preservando áreas de fala (Broca) se dominante.

🌊 Lobectomia Frontal Estendida Inclui giro cingulado (circunvolução do cíngulo) para tumores que invadem a linha média.

🎯 Ressecção Frontal Basal Foco nos gíros orbitários e retos para tumores que comprimem o nervo óptico ou alteram comportamento.

🔄 Hemisfherectomia Funcional Frontal Em casos pediátricos de epilepsia catastrófica, desconexão do lobo frontal do resto do cérebro (raro).


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Posicionamento: Supino, cabeça neutra ou rotacionada conforme o lado, fixação craniana.

2️⃣ Acesso: Incisão frontotemporal ou coronal (atrás da linha do cabelo), craniotomia fronto-orbitária ou padrão, abertura dural em amplos retalhos.

3️⃣ Mapeamento: Se área de fala próxima (dominante), mapeamento intraoperatório com paciente acordado (cirurgia awake) para delimitar fronteiras seguras.

4️⃣ Ressecção: Coagulação e divisão das artérias corticais frontais, dissecção ao longo do corpo caloso (via transcalosa) ou superfície lateral, remoção do tecido lobar en bloc ou por fragmentação (sucção), preservando a artéria cerebral anterior.

5️⃣ Hemostasia e Fechamento: Drenagem subdural ou epidural temporária, cranioplastia com reposição do osso (exceto em infecção ou edema cerebral severo — craniectomia decompressiva), fechamento em camadas.

⏱️ Duração: 4 a 8 horas.


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: UTI 48-72h, enfermaria 5-10 dias.

🚶 Mobilização: Rápida, mas pode haver hemiparesia contralateral temporária (se área motora adjacente edemaciada).

📅 Recuperação:

  • Fala (se dominante): disfasia de transição que melhora em semanas
  • Personalidade: alterações comportamentais (desinibição frontal) — melhoram com reabilitação neuropsicológica
  • Memória de curto prazo: déficits temporários
  • Força contralateral: se pré-central preservado, recuperação total esperada
  • Retorno ao trabalho: 3-6 meses (extenso processo de reabilitação neuropsicológica)

🎯 Considerações especiais:

  • Lobo frontal direito (não dominante): menos impacto na linguagem, mais risco de negligência espacial esquerda
  • Lobo frontal esquerdo (dominante): risco à fala (Broca) e funções executivas linguísticas

🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

A lobectomia é cirurgia de grande porte com riscos proporcionais à extensão da ressecção.

Efeitos temporários:

  • Edema cerebral significativo (pico no 3º dia pós-op)
  • Convulsões no pós-operatório imediato (profilaxia antiepiléptica)
  • Confusão e agitação (síndrome frontal) — comum no dominante

Nossa equipe está preparada para:

  • Hematoma intraparenquimatoso ou extracerebral — reintervenção
  • Infecção (abscesso cerebral) — antibióticos ou drenagem
  • Hidrocefalia pós-hemorragia — derivação temporária ou definitiva
  • Síndrome do trato médio (midline shift) — manejo de pressão intracraniana

Conversamos previamente sobre:

  • Que funções frontais (planejamento, juízo, inibição social) serão alteradas permanentemente em algum grau
  • Necessidade de reabilitação neuropsicológica extensa (6-12 meses)
  • Risco de epilepsia persistente mesmo com ressecção (30-40% dos casos)
  • Qualidade de vida versus quantidade de vida em tumores malignos

⚖️ Tomada de decisão

🔹 Tumores de baixo grau frontais: lobectomia pode ser curativa

🔹 Glioblastoma multiforme: ressecção máxima segura (oncológica) + radioquimioterapia

🔹 Epilepsia frontal refratária: lobectomia pode libertar de crises em 60-70% dos casos

🔹 Trauma: craniectomia decompressiva frontal (remoção do osso) versus lobectomia de contusão (remoção do tecido) — decisão baseada na gravidade


🤝 Removemos um território inteiro do cérebro sabendo que a neuroplasticidade redistribuirá as funções, mas consciente de que o mapa da personalidade será redefinido. Este conteúdo não substitui a consulta individual onde seu caso específico será discutido em detalhe.