🔫 Craniotomia para Ferimento de Arma de Fogo (FAF)

🔫 Craniotomia para Ferimento de Arma de Fogo (FAF)

> "Desvendando o rastro de destruição deixado pelo projétil, removendo ossos espalhados e metal, lavando o tecido contaminado, e fechando com a esperança de que a plasticidade cerebral supere a violência da ferida."


📋 O que é?

Procedimento neurocirúrgico de emergência para tratamento de ferimentos cranioencefálicos por arma de fogo. Envolve a abordagem do orifício de entrada (e saída, se existir), desbridamento de tecido cerebral necrosado, remoção de ossos e projéteis soltos, hemostasia e reconstrução da barreira craniana.

Cada trajetória de projétil é única — a energia cinética deixa um rastro de cavitação temporária (explosão interna) e permanente (destruição tecidual), além de trazer contaminantes do couro cabeludo e cabelos para dentro do cérebro.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Ferimento penetrante com projétil alojado intracraniano ou osso deslocado comprimindo cérebro

🎗️ Hematoma extradural, subdural ou intraparenquimatoso significativo causando compressão

🎗️ Hipertensão intracraniana refratária por edema traumático ou sangramento

🎗️ Ferimento deprimido (osso para dentro) > espessura do crânio

🎗️ Sangramento ativo visível em imagens ou externalizado pela ferida

🎗️ Ferimento perfurante (entrada e saída) com destruição tecidual massive


🔧 Extensões do procedimento

🔍 Craniotomia de Emergência Localizada Acesso limitado às áreas de entrada e saída, desbridamento focal.

🌊 Craniectomia Decompressiva Ampla Remoção de ossos extensos (hemicraniectomia) quando edema cerebral é massivo e ameaça a vida.

🎯 Abordagem Transfrontal/Temporal Trajetória complexa atravessando lóbulos — abordagem múltipla para limpeza completa.

🔄 Reconstrução Imediata versus tardia Reconstrução primária do crânio se limpa, ou craniectomia com fechamento da pele se contaminada (cranioplastia tardia).


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Posicionamento: Supino ou lateral conforme trajetória, tricotomia ampla, preparação antisséptica rigorosa (iodo em campo de batalha).

2️⃣ Acesso: Incisão em estrela ou curva ampla incluindo orifícios de entrada e saída, craniotomia ao redor dos defeitos ósseos (ou craniectomia se osso contaminado/fraturado).

3️⃣ Desbridamento: Remoção de ossos desprendidos, cabelos, pele necrosada, lavagem abundante com soro fisiológico (litros), remoção de projéteis acessíveis (não se busca projéteis profundos se risco de lesão adicional).

4️⃣ Hemostasia: Coagulação de vasos sangrantes, reparo dural (durorrafia), remoção de tecido cerebral necrosado (contusão) apenas se não viável.

5️⃣ Fechamento: Drenos subdurais ou epidurais, fechamento dural (impermeável se possível), reconstrução óssea com substitutos ou osso limpo, fechamento cutâneo em camadas.

⏱️ Duração: 3 a 6 horas (variável conforme extensão).


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: UTI prolongada (semanas a meses), frequentemente coma induzido inicialmente.

🚶 Mobilização: Lenta e gradual — depende totalmente da gravidade inicial e estruturas atingidas.

📅 Recuperação:

  • Deficits neurológicos frequentemente severos e permanentes (motores, linguagem, cognição)
  • Risco de infecção cerebral (abscesso por fragmentos ou projétil retido)
  • Epilepsia pós-traumática (50-70% dos casos de FAF craniano)
  • Retorno às atividades: imprevisível, muitos requerem reabilitação vitalícia

🎯 Realidades do trauma balístico:

  • Prognóstico reservado — mortalidade alta mesmo com cirurgia otimizada
  • Sequelas psicológicas (TEPT) além das físicas
  • Necessidade de suporte familiar e social extenso

🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

Cirurgia de trauma de alta complexidade com riscos inerentes à violência da lesão.

Efeitos temporários:

  • Edema cerebral cerebral massivo (piora nos dias 3-5)
  • Febre de sítio central (dano hipotalâmico)
  • Hipertermia por infeção (síndrome inflamatória sistêmica)

Nossa equipe está preparada para:

  • Rebleeding (ressangramento) — reintervenção emergencial
  • Infecção cerebral (meningite, abscesso, ventriculite) — antibioticoterapia prolongada
  • Fístula liquórica (vazamento de líquor pela ferida) — reparo cirúrgico
  • Hidrocefalia (obstrutiva ou comunicante) — derivação tardia
  • Síndrome de perfuração cerebral (brain fungating) — manejo de ferida complexa

Conversamos previamente sobre:

  • Que o prognóstico depende de: GCS inicial, trajetória do projétil (atravessou hemisférios ou tronco?), hemorragia massiva, e idade
  • Possibilidade de estado vegetativo persistente ou morte encefálica
  • Necessidade de decisões éticas sobre limitação de terapêutica em casos devastadores
  • Suporte psicológico para família durante longa internação

⚖️ Tomada de decisão

🔹 Indicação cirúrgica baseada em: compressão massiva, sangramento ativo, edema com herniação — não operamos por "tentar" se prognóstico é nefasto e família informada

🔹 Definição de objetivos: salvar vida versus qualidade de vida — discussão franca com familiares

🔹 Abordagem do projétil: removemos se acessível sem causar mais dano; projéteis profundos ou no tronco frequentemente deixados se estáveis


🤝 Enfrentamos o caos deixado pela bala com a ordem da técnica cirúrgica, sabendo que o destino final depende mais da extensão da ferida inicial do que de nossas mãos. Este conteúdo não substitui a consulta individual onde seu caso específico será discutido em detalhe.