🌿 Bloqueio do Plexo Celíaco (Neurolise ou Bloqueio)
> "Interrompendo a via da dor visceral abdominal no cruzamento das estradas nervosas, silenciando o sofrimento dos órgãos digestivos sem cortar a consciência."
📋 O que é?
Procedimento de infiltração neurolitica ou anestésica guiada por imagem (tomografia, ultrassom endoscópico ou fluoroscopia) direcionado ao plexo celíaco — rede nervosa densa localizada na região retroperitoneal, anterior à coluna torácica alta (T12-L1), atrás do estômago e do pâncreas. Este plexo é o "entroncamento" onde passam as fibras sensitivas dos órgãos abdominais superiores.
O plexo celíaco é como a central telefônica da dor visceral abdominal — recebe sinais de dor do fígado, vesícula, estômago, pâncreas, baço, rins e intestinos superiores. Ao injetarmos álcool (neurolyse) ou anestésico com corticoide (bloqueio), "cortamos os fios" desta central, impedindo que a dor visceral chegue ao cérebro, mantendo a sensibilidade da parede abdominal intacta.
🎯 Quando é indicada?
🎗️ Dor visceral abdominal crônica refratária, especialmente por câncer (pâncreas, fígado, estômago, retroperitoneal)
🎗️ Pancreatite crônica dolorosa refratária a tratamento conservador
🎗️ Dor abdominal funcional severa (síndromes dolorosas viscerais)
🎗️ Dor por metastases retroperitoneais ou ganglionares
🎗️ Dor pós-cirurgia abdominal crônica (adherências, síndrome do intestino irritável severo)
🎗️ Como ponte para cirurgia de desinervação celíaca em casos selecionados
🔧 Abordagens técnicas
🔍 Abordagem Posterior Translateral (Técnica Clássica) Punção percutânea por via posterolateral (costas), através do músculo quadrado lombar, avançando até a frente da coluna T12-L1, anterolateral à aorta.
🌊 Abordagem Transaórtica (Anterior) Via anterior (abdome), através do parênquima hepático ou gastroepiploico, diretamente no plexo — realizada sob ultrassom ou TC.
🎯 Abordagem Transcrural (Via Diafragma) Através dos pilares do diafragma, técnica modificada mais segura vascularmente (evita aorta diretamente).
🔄 Bloqueio por Ultrassom Endoscópico (EUS) Realizado por gastroenterologistas, agulha através do estômago até o espaço celíaco — alta precisão, menor risco de pneumotórax.
⚙️ Como funciona o procedimento?
1️⃣ Posicionamento: Decúbito ventral (para abordagem posterior) ou lateral esquerdo, acesso lombar superior exposto.
2️⃣ Localização: TC ou fluoroscopia identifica o corpo de L1, a aorta abdominal (à esquerda) e a veia cava inferior (à direita). O plexo celíaco está na frente da aorta, no nível do corpo de L1.
3️⃣ Inserção (Técnica Posterior): Anestesia local, agulha de 20-22G introduzida pelo flanco, avançando em trajeto anteromedial através do quadrado lombar até o espaço pré-aórtico.
4️⃣ Confirmação: Aspiração negativa (sem sangue, urina ou líquor), injeção de contraste mostrando dispersão bilateral ao redor da aorta (imagem de "asa de borboleta" ou "V").
5️⃣ Medicação:
- Bloqueio diagnóstico/terapêutico: 10-20 ml de anestésico local (bupivacaína 0,25-0,5%) + 40-80 mg de corticoide.
- Neurolyse (câncer): 20-50 ml de etanol absoluto (50-100%) ou fenol 6-10%, muitas vezes precedido por anestésico para evitar dor na injeção do álcool.
⏱️ Duração: 30-60 minutos (sob sedação consciente profunda ou anestesia geral leve).
🌱 O que esperar da recuperação?
🏥 Internação: Observação por 4-24 horas (risco de hipotensão ortostática).
🚶 Mobilização: Cautelosa — levantar gradualmente devido ao risco de queda pressórica.
📅 Recuperação:
- Hipotensão ortostática: comum nas primeiras 24-48h (deitado pressão normal, em pé cai) — hidratação e meias elásticas
- Diarreia: frequente (30-50%) — devido à desinervação parasimpática, geralmente transitória (dias a semanas)
- Dor abdominal de "flare-up": 24-48h após neurolyse (irritação pelo álcool)
- Alívio da dor visceral: imediato (bloqueio) ou 24-72h (neurolyse — tempo para destruição neural)
- Duração: semanas a meses (bloqueio) ou 3-6 meses a permanente (neurolyse em câncer)
🎯 Resultados:
- Alívio da dor oncológica em 70-90% dos casos (neurolyse)
- Melhora da qualidade de vida e redução de opioides
- Efeitos colaterais aceitáveis diante do alívio da dor
🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais
Procedimento de alto impacto com riscos significativos devido à proximidade com grandes vasos e órgãos.
✅ Efeitos temporários:
- Hipotensão ortostática severa (principal complicação) — manejo com fluidos e levantamento lento
- Diarreia osmótica/secretora — controlável com medicamentos
- Dor de "queimação" no abdome ao injetar álcool (minimizada com anestésico prévio)
✅ Nossa equipe está preparada para:
- Hemorragia retroperitoneal (lesão de aorta, veia cava, artérias frênicas inferiores) — rara mas grave
- Pneumotórax (abordagem muito alta, lesão de cúpula pleural)
- Perfuração de viscera oca (estômago, duodeno) — peritonite se não tratada
- Paraplegia (lesão da artéria de Adamkiewicz ou arteria mediana anterior) — catastrófica, rara
- Insuficiência supra-renal aguda (absorção de corticoide em dose alta — rara)
✅ Conversamos previamente sobre:
- Que a dor de parede abdominal não será afetada (apenas dor visceral interna) — pode haver mistura de componentes
- Necessidade de hidratação prévia e vigilância pressórica rigorosa
- Possibilidade de diarréia persistente (geralmente controlável com loperamida)
- Sinais de alerta: dor abdominal intensa progressiva, febre, sangue nas fezes, fraqueza nas pernas — exigem avaliação emergencial
⚖️ Tomada de decisão
🔹 Tratamento de escolha para dor visceral abdominal oncológica refratária (especialmente pâncreas)
🔹 excelente opção para pancreatite crônica dolorosa antes de considerar cirurgia maior (pancreatectomia)
🔹 Contraindicado se aneurisma de aorta abdominal, coagulopatia não corrigida, ou obstrução intestinal (ileo paralítico risco)
🔹 Preferir abordagem EUS (endoscópica) quando disponível — menor risco de pneumotórax e lesão vascular
🔹 Neurolise (álcool) reservada para casos oncológicos terminais; bloqueio (anestésico/esteroide) para doenças benignas crônicas
🤝 Bloqueamos a central de transmissão da dor abdominal profunda, oferecendo descanso ao paciente oncológico ou crônico, aceitando os trade-offs do sistema nervoso autônomo. Este conteúdo não substitui a consulta individual onde seu caso específico será discutido em detalhe.
