⭐ Bloqueio do Gânglio Estrelado

⭐ Bloqueio do Gânglio Estrelado

> "Atingindo a estrela nervosa que comanda o tráfego simpático do braço e da face, resetando o sistema de luta ou fuga que ficou preso no modo 'ligado'."


📋 O que é?

Procedimento de infiltração anestésica guiada por imagem (fluoroscopia, ultrassom ou TC) direcionado ao gânglio estrelado (cervicotorácico) — estrutura nervosa resultante da fusão dos gânglios cervicais inferiores (C7) e torácico superior (T1), localizada na região retrofaringea/pré-vertebral, anterior às vértebras C7-T1, próxima à artéria vertebral e à cúpula pleural.

Este gânglio funciona como a "central de distribuição" do sistema nervoso simpático para a cabeça, pescoço, braços e parte do tórax. Quando hiperativo (após traumas, infartos do miocárdio ou lesões nervosas), mantém um ciclo de dor, vasoconstrição e sudorese patológica. O bloqueio injeta anestésico nesta central, interrompendo temporariamente os sinais simpáticos excessivos, como desligar um disjuntor que disparou indevidamente.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Síndrome da Dor Regional Complexa (SDRC) tipo I e II do membro superior ("dedos zumbis" após fraturas ou cirurgias)

🎗️ Síndrome de dor simpática reflexa refratária (causalgia)

🎗️ Angina refratária (dor cardíaca sem obstrução coronariana tratável)

🎗️ Hiperhidrose palmar severa (suor excessivo nas mãos) — diagnóstico ou terapêutico

🎗️ Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) sintomas autonômicos — uso emergente e controverso

🎗️ Síndrome de Horner sintomático investigação ou tratamento

🎗️ Vasculite digital ou fenômeno de Raynaud severo do membro superior

🎗️ Síndrome da artéria vertebral sintomática (selecionados)


🔧 Abordagens técnicas

🔍 Via Anterior Infrecricóidea (Técnica de Chassaignac) Agulha introduzida ao nível da cartilagem cricóidea (C6), deslizando para baixo até C7, lateral ao traqueia e esôfago, anterior à coluna — acesso mais comum, menor risco de pneumotórax.

🌊 Guiada por Ultrassom (Via Anterior) Visualização em tempo real da artéria carótida comum, veia jugular, glândula tireoide, artéria vertebral e cúpula pleural — técnica mais segura, gold standard atual.

🎯 Via Posterior (Rara) Acesso pela região posterior do pescoço, através dos músculos profundos — risco maior de pneumotórax, pouco utilizada.

🔄 Via Endoscópica Transesofágica Através do esôfago ( Ecoendoscopia) — acesso direto ao espaço pré-vertebral, mínimo risco de vasos ou pleura.


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Posicionamento: Decúbito supino, cabeceira elevada 30-45°, pescoço em extensão leve, rotação contralateral (lado a ser bloqueado para cima geralmente), acesso anterior do pescoço exposto.

2️⃣ Localização: Identificação do processo transverso de C6 (tubérculo carotídeo - Chassaignac) ou C7 via palpação e ultrassom. O gânglio estrelado está profundo, anterior ao corpo de C7, medial à artéria vertebral.

3️⃣ Inserção: Anestesia local cutânea, agulha de 22-25G introduzida em trajeto ânteroposterior, deslizando ao lado da traqueia (evitando esôfago e vasos carotídeos), até contato ósseo com C7 ou C6, retração 2-3 mm.

4️⃣ Confirmação: Aspiração negativa (sem sangue, líquor ou ar), injeção teste de contraste (dispersão linear ao longo da coluna cervical baixa), monitoramento da temperatura cutânea do membro superior (deve subir 2-3°C).

5️⃣ Medicação: Injeção lenta de 5-10 ml de anestésico local (bupivacaína 0,25% ou ropivacaína 0,2%), muitas vezes associado a corticoide (betametasona) se bloqueio terapêutico repetitivo.

⏱️ Duração: 10-20 minutos (ultrassom) a 30 minutos (fluoroscopia).


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: Ambulatorial — alta após 1-2 horas de observação (vigilância de sinais de Horner e função respiratória).

🚶 Mobilização: Imediata — sem restrições, mas orientação para não dirigir imediatamente se ptose palpebral significativa.

📅 Recuperação:

  • Síndrome de Horner ipsilateral (confirmação de sucesso): ptose palpebral leve (olho "caído"), miosis (pupila menor), anidrose (falta de suor) no lado do roço — esperado e desejável, dura 4-8 horas
  • Aumento de temperatura do braço/mão: imediato, pele quente e ruborizada
  • Alívio da dor: minutos a horas após o bloqueio (confirma origem simpática)
  • Duração do efeito terapêutico: dias a semanas (anestésico); meses se série repetida

🎯 Eficácia:

  • Diagnóstica: 90%+ de confirmação se sintomas melhoram
  • Terapêutica: 60-80% de alívio em SDRC aguda; 40-60% em crônica
  • Pode ser repetido em série (2-3 vezes/semana por 2-3 semanas) para SDRC refratária

🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

Procedimento geralmente seguro, mas próximo a estruturas vitais (vasos, pleura, nervos recorrentes).

Efeitos temporários esperados:

  • Rouquidão (paralisia do nervo laríngeo recorrente) — 10-20% dos casos, resolve em 4-8 horas (evitar líquidos por algumas horas se tosse presente)
  • Disfagia leve (dificuldade para engolir) — edema local ou bloqueio de nervos esofágicos
  • Sensação de "bola na garganta" (globus)
  • Bradicardia transitória (bloqueio cardíaco simpático)

Nossa equipe está preparada para:

  • Pneumotórax (esquerda - lesão da cúpula pleural) — raro com ultrassom, mas possível; raio-X pós-procedimento se suspeita
  • Injeção intravascular (artéria vertebral, carótida) — convulsão imediata, acidente vascular cerebral — aspiração obrigatória antes da injeção
  • Injeção subaracnoidea (espaço peridural alto) — bloqueio espinhal total, paralisia diafragmática, parada respiratória — suporte ventilatório imediato
  • Hematoma retrofaringeo (lesão de vasos) — compressão de vias aéreas, raro mas emergencial

Conversamos previamente sobre:

  • Que a síndrome de Horner (olho caído, pupila pequena) é esperada e temporária — proteger o olho se não fechar completamente (lubrificantes)
  • Risco de rouquidão temporária — evitar alimentos sólidos até swallow normal
  • Sinais de alerta: falta de ar súbita, dor torácica intensa, fraqueza unilateral braço/rosto, dificuldade respiratória — exigem emergência
  • Contraindicações: infecção ativa no pescoço, anticoagulação não controlada, trauma traqueal recente, tumor de Pancoast (risco de disseminação)

⚖️ Tomada de decisão

🔹 Excelente ferramenta diagnóstica e terapêutica para SDRC do membro superior — deve ser tentado antes de simpatectomia cirúrgica

🔹 Preferência pela técnica guiada por ultrassom (menor risco vascular e de pneumotórax)

🔹 Contraindicado em pacientes com dependência de via aérea única (traqueostomia, estenose laríngea) devido ao risco de bloqueio do nervo recorrente bilateral (se fizer dos dois lados simultaneamente — nunca fazer bilateral em sessão única)

🔹 Efeito no TEPT e síndrome da longevidade: evidências emergentes, uso compassivo em casos selecionados


🤝 Atingimos a estrela nervosa no pescoço para apagar o fogo simpático que consome o braço dolorido, aceitando o olho caído temporário como prova de que desligamos o circuito certo. Este conteúdo não substitui a consulta individual onde seu caso específico será discutido em detalhe.