🩻 Artrodese Toracolombar para Deformidade (Escoliose/Cifose)

🩻 Artrodese Toracolombar para Deformidade (Escoliose/Cifose)

Sinônimos: Correção cirúrgica da coluna torta, Fusão para escoliose, Instrumentação vertebral deformidade

> "Endireitar o que a natureza curvou, sem quebrar o que ainda funciona — uma cirurgia de precisão milimétrica que equilibra estética, função e segurança."


📋 O que é?

Cirurgia complexa e longa para corrigir deformidades da coluna, principalmente escoliose (coluna torta em forma de S ou C) e cifose (corcunda, curvatura excessiva para frente).

Unimos várias vértebras em sequência (fusão) usando parafusos e hastes de metal para endireitar a coluna e mantê-la na posição correta. Em casos de deformidade rígida, precisamos fazer osteotomias (cortes cirúrgicos no osso) para "quebrar" a rigidez e permitir o endireitamento. A cirurgia pode envolver 5, 10 ou mais níveis vertebrais.

É uma das cirurgias de coluna mais longas e complexas, exigindo equipes experientes e monitoramento neurológico contínuo.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Escoliose idiopática do adolescente com curva >45-50° (progressiva, risco de piorar na vida adulta e comprometer função pulmonar)

🎗️ Escoliose degenerativa do adulto com dor crônica incapacitante ou desequilíbrio postural severo

🎗️ Cifose de Scheuermann severa (corcunta rígida do adolescente que causa dor e limitação)

🎗️ Deformidade pós-traumática (fratura vertebral que cicatrizou em posição torta)

🎗️ Deformidade por tumor ou infecção que destruiu a estrutura óssea da coluna

🎗️ Curvas torácicas grandes (>80°) que começam a comprometer a função cardíaca ou respiratória


🔧 Tipos de abordagem

🔩 Fusão Posterior com Instrumentação (Padrão) Acesso pelas costas. Parafusos em cada pedículo vertebral conectados por hastes de titânio que "tração" a coluna para a posição correta. É a técnica mais utilizada atualmente, permitindo correção em 3D (desrotação das vértebras).

🫃 Fusão Anterior (Corpectomia) Acesso pelo peito ou abdômen para remover corpos vertebrais e colocar cages. Usada raramente sozinha hoje, mas pode ser combinada em curvas muito rígidas.

🔒 Fusão Combinada (360° - Anterior + Posterior) Realiza ambos os acessos no mesmo ato ou em momentos distintos. Oferece a máxima correção possível e maior taxa de fusão, mas com morbidade (risco) significativamente maior. Reservada para deformidades graves e rígidas.

✂️ Osteotomias Vertebrais (Cortes no Osso) Quando a coluna está muito rígida para endireitar simplesmente "puxando":

  • PSO (Pedicle Subtraction Osteotomy): Remove pedículo e parte do corpo vertebral, permitindo fechar a coluna para trás. Corrige 30-40° de deformidade.
  • VCR (Vertebral Column Resection): Remove a vértebra inteira. Permite correção >40°, mas é a cirurgia de maior risco (medula exposta temporariamente).

🌱 Técnicas de Crescimento Guiado (Pediátrico) Para crianças que ainda crescem. Colocamos hastes que prendem apenas um lado da coluna, permitindo que o crescimento natural do outro lado endireite gradualmente a curva (sem fundir totalmente, preservando mobilidade).


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Posicionamento: De bruços em mesa cirúrgica especial que permite "dobrar" e ajustar a coluna durante a operação, com almofadas que protegem a barriga e melhoram a ventilação

2️⃣ Acesso posterior: Incisão longitudinal no meio das costas, do comprimento necessário para expor todas as vértebras a serem instrumentadas (pode ser de 20 a 40 cm em casos longos)

3️⃣ Preparo dos pedículos: Localização cuidadosa dos pontos de entrada dos parafusos usando fluoroscopia (raio-X) e/ou navegação 3D (GPS cirúrgico)

4️⃣ Osteotomia (se necessário): Cortes controlados no osso para mobilizar segmentos rígidos, permitindo que a coluna se mova para a nova posição

5️⃣ Instrumentação: Colocação de parafusos pediculares em cada nível (dois de cada lado), conectados por hastes de titânio. Apertamos progressivamente os parafusos nas hastes para tracionar a coluna para o alinhamento correto

6️⃣ Monitoramento contínuo: Durante toda a manipulação, monitoramos a função da medula espinhal em tempo real (potenciais evocados)

7️⃣ Enxerto ósseo: Colocação de osso (geralmente do próprio paciente, da crista ilíaca) sobre as facetas para garantir a fusão biológica definitiva

⏱️ Duração: 4 a 8 horas (ou mais), dependendo do número de níveis e complexidade das osteotomias.


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: 5 a 14 dias, sendo os primeiros 24-48h em UTI (cuidados intensivos)

🏃 Mobilização: Levantar e andar com ajuda fisioterapêutica em 1 a 2 dias, mas com muita limitação de movimento

🩹 Cuidados intensivos:

  • Monitoramento rigoroso da força das pernas e pés (sinais de lesão medular)
  • Fisioterapia respiratória intensiva (incentivador, movimentação) para evitar pneumonia
  • Profilaxia de trombose venosa (meias compressivas, heparina, movimentação precoce)
  • Controle rigoroso da dor (multimodal: analgésicos, bloqueios, infiltrações)

📅 Retorno às atividades:

  • Alta com ajuda domiciliar: 1-2 semanas
  • Trabalho leve (escritório): 3 a 6 meses
  • Atividades físicas e esportes: 6 a 12 meses (coluna precisa consolidar a fusão)
  • Acompanhamento radiográfico: a cada 3-6 meses no primeiro ano para verificar a fusão

🎯 Resultados: Correção significativa da deformidade (redução da curva em 50-70%), melhora estética postural importante, alívio da dor em 70-80% dos casos quando bem indicada. A coluna ficará rígida nos níveis operados, mas estável e alinhada.


🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

Esta é uma das cirurgias de maior porte da neurocirurgia/espinha, com riscos proporcionais à complexidade:

Riscos específicos e como os prevenimos:

  • Lesão da medula espinhal (paraplegia): O risco é real (1-5% dependendo da complexidade). Prevenimos com:

    • Monitoramento neurofisiológico intraoperatório contínuo (potenciais evocados somatosensitivos e motores) que alertam imediatamente qualquer alteração na função da medula
    • Técnica de "correção em pequenos incrementos", evitando tração brusca
    • Em casos de alto risco, usamos monitoramento da pressão da medula (intrathecal pressure monitoring)
  • Sangramento massivo e síndrome do maciço: Perda sanguínea de 1-2 litros é comum em fusões longas. Prevenimos com:

    • Uso de ácido tranexâmico (antifibrinolítico) para reduzir sangramento
    • Recuperação e retransfusão do sangue do paciente (cell saver)
    • Coagulograma frequente e reposição rápida de plaquetas/fibrinogênio se necessário
  • Pseudoartrose (falha da fusão): Mais comum quando fundimos muitos níveis (10-20% dos casos em fusões longas). Prevenimos com enxerto ósseo adequado e, às vezes, estimuladores de fusão (BMP) em pacientes de alto risco (fumantes, osteoporose).

  • Falha da instrumentação: Parafuso que perde fixação ou haste quebra (raro se bem indicado, mas pode ocorrer em osteoporose severa).

  • Síndrome de desmielinização posterior reversível: Alteração transitória no cérebro relacionada a pressão/osmolaridade durante cirurgia longa (rara, geralmente reversível).

  • Trombose venosa profunda e embolia pulmonar: Risco aumentado por imobilidade e cirurgia longa. Prevenimos com anticoagulação precoce e meias compressivas.

Por que é uma cirurgia de equipe:

  • Neurocirurgião/espinhalista líder
  • Anestesiologista especializado em neuroanestesia
  • Neurofisiologista (monitoramento)
  • Cirurgião vascular (em caso de necessidade de acesso anterior ou lesão vascular)
  • Hemoterapia (banco de sangue) preparada

⚖️ Tomada de decisão

A artrodese toracolombar é indicada quando:

🔹 A curva é progressiva e >45-50° em adolescentes (evita piora na vida adulta)

🔹 Há dor funcional incapacitante ou desequilíbrio postural severo em adultos

🔹 A curva torácica >80° começa a comprometer função cardíaca ou respiratória

🔹 A deformidade é fonte de sofrimento psicológico significativo (autoimagem)

Deve ser evitada ou adiada quando:

🔹 A curva é <40° e estável, sem sintomas (tratamento conservador com fisioterapia)

🔹 O paciente tem doença pulmonar severa (não tolera posição de bruços por 4-8 horas)

🔹 Idosos frágeis com osteoporose severa (risco de falha da fixação muito alto)

🔹 Expectativas irreais (não conseguimos deixar a coluna "perfeita", mas funcional e alinhada)

A decisão de operar uma escoliose adolescente é sempre difícil e deve envolver a família inteira, com discussão honesta sobre riscos e benefícios a longo prazo.


⚠️ A cirurgia de deformidade toracolombar é um dos maiores desafios da cirurgia de coluna, realizada apenas em centros de referência com experiência comprovada. O sucesso depende tanto da técnica cirúrgica precisa quanto do cuidado perioperatório intensivo (UTI, fisioterapia, prevenção de complicações). Não deve ser realizada em centros sem estrutura para monitoramento neurofisiológico avançado e suporte intensivo. Este conteúdo não substitui avaliação em serviço especializado em deformidades da coluna.